Engenharia de Produção e Disciplinas Correlatas

No caso de disciplinas fronteiriças com a Engenharia de Produção, é sempre difícil estabelecer em poucas palavras, com grande nitidez e de forma definitiva, uma linha que a separe dos domínios de ação das diferentes disciplinas, sobretudo quando elas são vizinhas, como é o caso da administração, da economia e das diversas engenharias voltadas para análise, projeto e melhoria de processos técnicos. Na medida, porém, em que devemos justificar a criação de um novo curso, é necessário nos estendermos um pouco mais nessa caracterização da Engenharia de Produção, para evitar possíveis mal-entendidos. Evidentemente, é a existência efetiva de um objeto próprio, relativamente autônomo que decide, em última instância, o que é uma determinada disciplina científica, que, porém, deve acompanhar as próprias mudanças que atingem seu objeto. Assim, torna-se necessário explicitar sobre qual esfera da realidade da produção se fundamenta a Engenharia de Produção e o que constitui sua especificidade.

Engenharia de Produção x Economia e Sociologia

A “produção” constitui uma totalidade complexa, indissociável, que permite diferentes níveis de abordagem e põe diferentes problemas em cada um deles. A Engenharia de Produção se diferencia pela natureza dos problemas de que trata e pelo nível em que os aborda, o que não a isola das outras disciplinas mas requer, ao contrário, relações e contribuições mútuas, visto sua natureza multidisciplinar. Estas relações deverão certamente se refletir num currículo com participação mais intensa de matérias das ciências humanas e sociais, mas com conteúdos e abordagens voltados mais diretamente para os problemas da tecnologia, da produção e do trabalho.

É fácil reconhecer que a Engenharia de Produção se distingue das engenharias técnicas, mas é menos visível a fronteira que a separa da economia, da psicologia e da administração.

O nível privilegiado pela abordagem dos problemas pertinentes à Engenharia de Produção é “mediano”, mais próximo dos objetos ditos “microeconômicos” ou “microssociais” do que dos grandes agregados “macrossociais” e “macroeconômicos”, o que a aproxima mais da economia industrial e da microeconomia que da economia tout court. Trata-se, com efeito, de conhecer e de organizar a produção circunscrita espacial e temporalmente às unidades produtivas, embora esta delimitação não possa ser feita de forma definitiva como mostra, hoje, o surgimento das “empresas-rede”. Aqui, as categorias apropriadas ao seu objeto e nível de abordagem são as de “empresa” (ou correlatas como “firma”), “fábrica”, “produto”, “equipe de trabalho”, “posto de trabalho”, “ilha de produção”, “sistema de produção”, “unidade de produção”, etc. Independentemente das diferentes áreas de atuação da Engenharia de Produção e de seu interesse comum pela “produção”, esta é sempre abordada por seus aspectos particulares e singulares, o que a leva a assumir uma posição intermediária no escopo das ciências que se ocupam da produção. Isso não significa, porém, que uma vez situada a Engenharia de Produção ela possa aí se acomodar e esquecer as tramas reais que ligam seu objeto à totalidade da sociedade; procurar entender as mediações entre a técnica e a sociedade é precisamente o que a diferencia das outras engenharias. Em suma, o objeto da Engenharia de Produção é mais propriamente o sistema de produção e não o sistema econômico.

Os problemas que se colocam à Engenharia de Produção são sempre circunscritos e limitados no seu escopo imediato, mas se inscrevem em um contexto mais amplo, e sobre o qual exerce e do qual recebe influências não meramente circunstanciais. Finalmente, o engenheiro de produção defronta-se diretamente com a realidade contraditória de seu objeto, ao perceber que as tentativas de “racionalização” da produção acabam invariavelmente por produzir a miséria dos produtores, manifestada pelo desemprego, patologias ocupacionais, desqualificação e precarização do trabalho, sem falar nos conhecidos problemas ecológicos. Para compreender esses processos contraditórios, as contribuições da economia e da sociologia são indispensáveis.

Engenharia de Produção x Administração

Desde o seu nascimento, a Engenharia de Produção se confundiu com a administração, o que é exemplificado pela paternidade comum atribuída a F. Taylor, o iniciador da “organização científica do trabalho”. A sua diferença específica em relação à administração é, portanto, crucial e talvez mais difícil de ser percebida. O que distingue seu objeto e abordagem daqueles da administração é a presença da materialidade da produção e da técnica, que a afasta das ciências humanas e a aproxima das engenharias. Não se trata, todavia, de uma simples questão de dosagem, em que a Engenharia de Produção seria uma engenharia técnica com uma maior quantidade de matérias de administração ou uma administração com mais conteúdo técnico, conforme o ponto de vista que se queira adotar.

Também aqui há uma distinção de objetos e de objetivos subjacentes a esta maior proximidade com a tecnologia. As práticas de gestão pertinentes à Engenharia de Produção incorporam sempre a tecnologia, materiais e produtos, cuja melhoria em termos de qualidade, custo, eficiência, segurança, entre outros requisitos, constituem sua finalidade central. Esta posição da Engenharia de Produção, na interface entre técnica e ciências sociais e humanas, fica mais evidente quando a confrontamos com as engenharias de processos (ou engenharias técnicas).