A Especificidade da Engenharia de Produção no Campo da Engenharia

Uma outra importante questão diz respeito ao lugar que ocupa a Engenharia de Produção diante das outras engenharias de caráter mais técnico. Na definição da Engenharia de Produção já se assinala seu caráter global ou sistêmico e o aporte das ciências humanas, características existentes apenas parcial ou incidentalmente nas outras áreas da engenharia. A Engenharia de Produção não pode, portanto, ser reduzida a algo como “física + matemática + gestão + ciências humanas”, ou seja, as engenharias tradicionais acrescidas de conhecimentos de administração e de “humanidades” em maior proporção.

A posição da Engenharia de Produção pode ser melhor visualizada quando se explicitam quatro esferas no interior da relação homem-natureza:

(1) a natureza em si (ou domínio da causalidade pura, que opera independentemente dos homens);

(2) estrutura ou ação técnica (domínio da “causalidade posta”, misto de natureza e subjetividade humana na forma de fins postos e objetivados, ou natureza transformada);

(3) finalidades e objetivos sociais e psicológicos (domínio do “dever ser”, ou seja, da vontade, da subjetividade e da consciência humana que querem se objetivar);

(4) relações, estruturas e processos sociais (domínio da legalidade social que opera de forma quase-natural, independentemente da vontade dos indivíduos, embora tenha origem em atos conscientes individuais).

Vejamos, a partir destas distinções essenciais (e necessariamente apresentadas aqui de forma esquemática), como situar as diferentes formas de abordagem teórico-práticas da produção.

A física (assim como as outras ciências da natureza), num dos extremos, tem por objetivo primordial o desvendamento das legalidades naturais, estabelecendo uma relação essencialmente “teórica” com seu objeto. Seu locus por excelência é a natureza mesma, malgrado as mediações sociais que se interpõem entre o cientista e seu objeto de pesquisa. Uma vez formalizados, seus conhecimentos vão alimentar as diferentes técnicas, capacitando-as para intervir sobre a natureza de forma mais eficiente.

Nos limites e finalidades deste documento, basta dizer que se a física também interfere nos processos naturais, o faz com o intuito de que a natureza revele o que ela é, e não com o objetivo imediato de transformar a natureza em algo útil ao homem. Este é o campo da tecnologia e da engenharia em geral.

A engenharia em geral encontra-se numa relação simultaneamente teórica e prática com seu objeto, seu domínio próprio sendo a “causalidade posta”, isto é, a técnica ou natureza transformada: interessa-lhe não apenas o conhecimento teórico da física mas o “conhecimento aplicado”, melhor, o conhecimento objetivado na relação prática de transformação da natureza; pretende dizer não somente o que a coisa é, mas como ela deve ser para atender determinados fins; não apenas conhecer, mas projetar e fazer, transformando o objeto natural a fim de obter certos resultados e efeitos desejados. Para realizar tais propósitos é evidente que a engenharia deve se apoiar nos conhecimentos das ciências da natureza, mas não apenas nestes. Os “objetos tecnológicos” já não são constituídos de puros fenômenos naturais, mas sim de um complexo heterogêneo de finalidades humanas (teleologia) e de processos naturais (compostos de causalidade e, também, de casualidade, relações casuais próprias aos fenômenos naturais).

A Engenharia de Produção se distingue da engenharia em geral por incorporar mais uma dimensão: a do ser social. Trata-se, agora, de um domínio onde a subjetividade humana está presente não apenas enquanto finalidade posta (que objetivos deve orientar a produção material), mas também enquanto “contexto social” e dimensão social intrínseca à produção, ou seja, onde o próprio homem é um elemento constitutivo: relações sociais, contradições e conflitos, motivações e projetos pessoais passam a integrar o novo objeto de estudo. A Engenharia de Produção ocupa, portanto, uma posição na interface entre o ser natural, ou mais propriamente entre a técnica (causalidade posta) e o ser social. Encontra-se aqui a sua base objetiva. Se às engenharias técnicas interessam os fenômenos naturais e as interações entre fenômenos em dadas condições de contorno (inclusive sociais, sob a forma de critérios de custo, vida útil etc.), à Engenharia de Produção interessam as interações entre tecnologia e individualidades sociais no interior dos sistemas produtivos.

No domínio técnico da natureza pretende-se, sobretudo, utilizar da forma mais eficiente possível os meios e conhecimentos de que se dispõe. A técnica intervém, uma vez definidas suas “condições de contorno” físicas e sociais, para otimizar, aperfeiçoar e explorar as possibilidades naturais neste caso, a consciência individual e as determinações sociais não se põem durante o fazer, mas antes, na escolha dos problemas e de sua variáveis, e após, na definição e na avaliação de resultados e escolha entre as possibilidades identificadas. Quanto à Engenharia de Produção, seu objeto comporta em si mesmo os indivíduos que trabalham ou consomem produtos do trabalho, assim como as relações que se estabelecem entre eles. A diferença, portanto, não está em que a engenharia em geral e a Engenharia de Produção tratem de realidades distintas, uma técnica e outra social, mas sim em focalizarem mais intensamente certos aspectos de uma mesma realidade técnico-social – a tecnologia.

“Consciência Crítica” x Objeto Social

O que precede poderia levar a pensar que a Engenharia de Produção teria, então, a função de desenvolver a consciência social que falta às engenharias técnicas, ou, dito de outra forma, dar um conteúdo ético à técnica. Como vimos, a Engenharia de Produção se constituiria essencialmente numa disciplina que trata, além de um sistema composto de homens, materiais e equipamentos, também das relações ou interfaces entre homem-matérias primas (ou homem-objeto) e homem-equipamento (ou homem-máquina) etc.

Assim, a Engenharia de Produção só justifica sua existência na medida em que o “fator humano” permanece no processo de produção e onde e quando este intervém de maneira direta, isto é, enquanto o processo de produção permanecer heterogêneo, composto das diferentes esferas do ser natural e do ser social (ou, nos termos da definição clássica, envolver “homens, materiais e equipamentos”). As engenharias estão mais próximas das ciências da natureza, cujos conhecimentos procuram transformar em técnicas. Somente através desta mediação as ciências naturais se relacionam com a Engenharia de Produção. Mas a Engenharia de Produção não constitui a “consciência social” da engenharia. Ao contrário, preferimos vê-la antes como tratando da dimensão social necessariamente presente na engenharia, na medida em que toda prática (seja ela instrumental ou técnica) está inserida numa praxis social mais ampla, que não somente lhe serve de contexto como também a conforma e a penetra intimamente. Aqui se encontra a razão de ser da Engenharia de Produção, nas relações sociais que se materializam em várias mediações da relação homem-natureza (interfaces Homem-Máquina, consumidor-produto etc.): a dimensão social não é mero contorno, é dimensão estruturante do próprio objeto.

Dessa maneira, é possível intermediar com mais consistência e propriedade a prática do engenheiro com a prática social, esclarecendo nas opções econômicas e técnicas as implicações sociais e suas conseqüências para os indivíduos. Tal como afirmado em nossa proposta para a modernização do ensino de engenharia (cf. anexo VI ), a Engenharia de Produção pode contribuir de outra forma para a formação de um “engenheiro crítico”, na medida em que consegue mostrar de forma concreta como se dá a trama de relações entre tecnologia, sociedade e indivíduos.

Nesse sentido, hoje vivemos diante de uma dupla constatação que assinala o caráter essencialmente contraditório da produção. A produção se caracteriza por um domínio crescente da natureza, no entanto, não é mais possível negligenciar as mazelas humanas e a depredação ecológica que acompanham o formidável avanço das forças produtivas. É precisamente esta realidade contraditória que dificilmente se deixa apreender pelos conceitos tradicionais da Engenharia de Produção. Sobretudo, querer pensar a produção como simples processo técnico (valor de uso, processo de trabalho etc.), isoladamente de suas determinações sociais (valor de troca, processo de valorização etc.) que, em verdade, lhe dá sentido e organização, é deixar de lado o essencial dos problemas em prol de questões técnicas de detalhe, que acabam, deste modo, negando a própria especificidade da Engenharia de Produção. Em termos mais práticos, o engenheiro de produção não pode se contentar com uma utilização intuitiva de conceitos como “eficiência”, “ótimo”, “produtividade”, “qualidade”, “valor”, “custo”. etc., mas deve tomá-los como objeto de sua perquirição e prática transformadora, o que requer tanto uma abordagem sistemática quanto histórico-social da racionalidade produtiva.

Toda esta longa fundamentação serve a um único propósito – caracterizar a natureza histórica e social do objeto da Engenharia de Produção e procurar delimitar o campo de ação desta disciplina em relação às disciplinas vizinhas -, o que comporta importantes desdobramentos para o ensino e pesquisa em Engenharia de Produção. Tratando-se, aqui, de um projeto de curso de graduação essas digressões poderiam parecer deslocadas, mas elas se refletem diretamente na estrutura e conteúdos programáticos dos cursos e disciplinas, assim como na composição do corpo docente e na geração de conhecimentos que deverá assegurar as atividades de ensino, sobretudo na necessidade de uma atividade própria de coordenação. Em consonância com esta concepção de Engenharia de Produção, a coordenação deve ser capaz de dar uma coerência aos conteúdos diversos, evitando, tanto quanto possível, os problemas usuais dos coordenadores de curso, quando lidam com matérias que não são do núcleo específico.

Na medida em que a natureza complexa da produção vai de encontro ao enclausuramento das disciplinas e especialidades, esta fundamentação se impõe de forma a eliciar os princípios fundamentais da estrutura curricular, que deve traduzir esta natureza histórico-social da produção numa composição multidisciplinar, na qual as ciências humanas e sociais terão tanto peso quanto as ciências naturais e a engenharia de processos. Isto posto, podemos agora detalhar a formatação do curso.